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sábado, 6 de abril de 2019

Prédios improvisados se proliferam em favelas e viram bons negócios

Com mais de 830 000 casas em situação irregular (cerca de 25% do total), a cidade de São Paulo convive com a crescente verticalização de suas favelas. O volume da ilegalidade pode ser ainda maior, pois a prefeitura utiliza o Censo de 2010 como referência. Chamadas de “autoconstruções” pelos técnicos, essas unidades sobrepostas costumavam servir apenas para abrigar o aumento da família do dono do imóvel original. Mais recentemente, no entanto, o empilhamento de lajes tornou-se um modelo de empreendimento que garante boas receitas aos proprietários dos prédios. Isso levou alguns deles a investir também em “projetos” mais elaborados e acabamentos melhores, o que faz com que as construções se destaquem em relação ao entorno.


Em meio a um mar de casas com tijolos à vista em Paraisópolis, a maior favela da metrópole, na Zona Sul, um edifício de cinco pavimentos, com a fachada pintada de vermelho reluzente, chama a atenção de quem passa pela Avenida Hebe Camargo. Encravada em um ponto alto do bairro, a edificação, erguida há cerca de um ano, possui entrada por duas ruas e conta com seis apartamentos de 38 metros quadrados cada um. Todos dispõem de cozinha no estilo americano e teto rebaixado com gesso. O aluguel ali sai por 650 reais. A “cobertura”, de 87 metros quadrados e com direito a duas sacadas, custa mais caro: 900 reais por mês. No térreo, uma loja de bugigangas ocupa um espaço de 80 metros quadrados. Todas as unidades estão alugadas, o que gera uma receita de cerca de 6 000 reais por mês para o dono do local. “Eu queria fazer mais alto e os pedreiros até disseram que daria para levantar mais um andar”, afirma o comerciante Douglas de Sousa, de 30 anos, que pretende transformar- se em um grande construtor na favela onde nasceu. Para isso, passou a cursar engenharia civil em janeiro. “Com estudos e cálculos adequados, pretendo gastar menos material e trabalhar para a população de baixa renda, pois um engenheiro dificilmente quer entrar na favela.”


Em Heliópolis, a segunda maior favela da capital, um prédio pintado de azul, com cinco andares, também destoa da paisagem habitual. “Encaixado” no meio de dezenas de casas menores, o edifício deu trabalho aos vizinhos quando a obra começou, há dois anos. Várias residências anexas sofreram danos estruturais e precisaram ser reforçadas. Nos vinte apartamentos, dispostos em corredores estreitos, a taxa de ocupação é de 100%. Ali, o valor do aluguel é, em média, 700 reais (além dos custos de água e luz), pagos em um carnê. Não é necessário fiador nem comprovante de renda. A lógica é simples: não pagou, vai embora, mas fica com o nome sujo no pedaço. No fim do mês, o lucro do empreendimento é de cerca de 14 000 reais. Procurado, o dono do edifício não quis se pronunciar.


No mesmo bairro, a busca por imóveis para alugar ou vender abriu caminho para pessoas dispostas a empreender. Carpinteiro de formação, Francisco Pereira, de 39 anos, juntou-se a quatro irmãos e dois sobrinhos, todos com conhecimentos práticos de construção civil. Nos últimos dois anos, a família levantou quatro prédios na região, com um total de 32 apartamentos. Cada um, de 36 metros quadrados, foi comercializado por cerca de 70 000 reais, o que gerou uma receita bruta de mais de 2 milhões de reais. “Eu mesmo faço os projetos, e usamos material e máquinas de primeira qualidade”, diz Pereira, que espera finalizar em breve outras duas obras, antes de procurar mais terrenos na área.


Do outro lado da cidade, em Perus, na Zona Norte, da união de três irmãos saiu um prédio de cinco andares, levantado sobre um barranco e ao lado de uma escadaria, cujos degraus recebem ininterruptamente esgoto proveniente de casas da vizinhança. A obra durou nove anos. Na edificação existem cinco apartamentos de 50 a 80 metros quadrados, todos alugados. O valor da mensalidade varia de 450 a 700 reais. No terraço, uma pequena plantação de alho faz o pedreiro Antonio Batista, de 47 anos, lembrar-se dos tempos em que cultivava a planta em Dom Basílio, na Bahia. “Graças a Deus não precisei pagar a pedreiros e meus irmãos me ajudaram na construção, assim como eu os ajudo”, afirma Batista, que é casado e pai de dois filhos. A família mora em uma casa a poucos metros do prédio. Outro auxílio para a obra foi obtido por meio da internet. “Vi vários vídeos no YouTube e aprendi a fazer os cálculos. Sempre trabalho com materiais em quantidade maior do que a recomendada”, diz. “Coloquei dois caminhões carregados com 32 000 quilos na garagem para ver se o prédio aguentava, e aguentou. Por si só o prédio não cai. Só se for por um castigo divino”, garante.


Edificações como essa surgem aos montes também na região metropolitana. Em Carapicuíba, um paredão com centenas de casas sobrepostas destaca-se pelo número de canos instalados do lado de fora e que despejam dejetos diretamente em um terreno da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. A poucos quilômetros dali, no Jaraguá, na Zona Norte, uma casa de três andares chama a atenção de quem passa pelo bairro. Construído desafiando a lógica do “menor em cima e maior embaixo”, o prédio parece que está de ponta-cabeça. Para baixo de um barranco, são mais quatro andares, onde seis residências constituem um condomínio informal que impõe sérios desafios à geometria. “Não sei como está de pé, pois os pilares são muito finos”, afirma o engenheiro Mario Franco, que calculou mais de 2 000 projetos em São Paulo (e pelo Brasil), como o Hotel Unique e o Instituto Tomie Ohtake. Os viadutos Alcântara Machado e Bresser, na Zona Leste, também foram construídos por ele. “É incrível a prefeitura permitir isso. Nas nossas casas se exige tudo”, diz ele, referindo-se também às outras edificações mostradas nesta reportagem.


Em março, a gestão de Bruno Covas enviou à Câmara Municipal um projeto de lei que prevê anistia a construções irregulares na cidade. A medida, se for aprovada pelos vereadores, só vai atingir moradores que possuem a escritura do terreno, o que não é o caso de habitantes de favelas ou regiões distantes, como Cidade Tiradentes, na Zona Leste, apinhada de construções verticalizadas. Para eles, a prefeitura vai criar um projeto que reconhece o chamado direito de laje. O texto deverá ser enviado ao Legislativo ainda em abril.


Para obter o documento de posse, o dono do imóvel precisará seguir uma série de regras e deverá apresentar um laudo assinado por um engenheiro ou arquiteto que atesta a segurança das edificações. “Isso pode ser um problema para a regularização, mas só saberemos como será a adesão depois que o texto for aprovado”, afirma o secretário municipal de Urbanismo e Licenciamento, Fernando Chucre. A medida é vista com ressalvas por especialistas. “Se a prefeitura não dá conta nem de regularizar terrenos, imagine do resto”, afirma o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, ex-vereador pelo PT.


Caso passe na Câmara, o texto vai beneficiar pessoas como o comerciante Gilmar de Santana, de 46 anos. Ele transformou sua casa em uma espécie de “extensão” do Autódromo de Interlagos. Uma simples residência, construída sob um barranco, deu lugar vinte anos depois a um prédio de sete andares, com várias sacadas envidraçadas, utilizadas em dias de corrida por pessoas que não estão dispostas a pagar os preços oficiais dos ingressos. Do local há vista parcial da pista. No auge da presença de brasileiros no circuito, Santana chegou a faturar mais de 20 000 reais em um fim de semana. Em 2014, mandou fazer uma réplica de um carro vermelho, construída de resina. “Agora o movimento ficou fraco e estou pensando em não fazer mais nada”, queixa-se. Ali também funciona um ferro-velho de sua propriedade.


Para erguer o prédio, de 2 000 metros quadrados, ele diz ter gasto mais de 2 milhões de reais, ao longo das duas décadas de empreitada. Para finalizar a obra, que inclui acabamento interno, instalação de uma piscina no 5º pavimento e paisagismo nas varandas, serão necessários mais 600 000 reais. “É a obra de uma vida. Quando terminar, vou ter mais de 50 anos e finalmente poderei curtir minha casa.” A fama obtida por ele após dezenas de entrevistas fez a prefeitura bater à sua porta, em 2015, para saber da situação das estruturas. Um laudo assinado por um engenheiro apontou boa qualidade da edificação


Enquanto há moradores que tentam a regularização, outros aproveitam os vácuos na fiscalização e constroem ilegalmente na cara do poder público. Na antiga favela do Jaguaré, na Zona Oeste, na beira da Marginal Pinheiros, uma dezena de prédios “engoliu” as edificações regulares, construídas pelos governos estadual e municipal a partir dos anos 90. Sem nenhuma fundação e com cinco ou até seis andares, os predinhos apresentam sérios perigos em caso de incêndio. “As escadas são muito íngremes e as pessoas precisam se pendurar para descer. Pode morrer muita gente em uma fatalidade”, afirma o engenheiro civil Antonio Fernando Berto, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). “São Paulo passa na frente desses prédios todos os dias, mas os governantes fecham os olhos”, completa.


Fonte: Sérgio Quintella / Veja SP

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